Teses que o silêncio tem

Acreditava que a arte servia para pedir perdão a uma mulher e amar outra. A arte não era um escape, era uma armadilha mortal.

Quando começou a escrever, e tinha verdadeiro talento, pensou que cedo atrairia a si uma mulher que o merecesse. Depois de toda a mágoa feita, via na arte, nessa deriva, no belo, a sua redenção - os seus relacionamentos com mulheres tinham sido, quando importantes, muito breves, mentirosos, fugidios.

Porém, era agora tarde para amar senão a verdade. Deus expulsou-o. Mulher que o amasse? Nunca. Irónico. Era um homem espesso, denso, incapaz e egocêntrico. Nunca se livrou disto... Sem surpresa, todos os heróis e personagens masculinos, por mais secundários que fossem, usavam sempre o mesmo nome. O seu. Planava incandescente sobre a sua solidão. Para quê mentir, para quê estratégias, falar do que não conhecia, fazer o romance feliz? Não há surpresa também aqui: as heroínas também usavam sempre o mesmo nome.

Salomé. Livro após livro, sentia que pedia perdão a Salomé e que amava Salomé. Era no que acreditava. Uma e a mesma coisa, que lhe vinha do passado, breves faíscas que com o tempo se tornaram no único foco de incêndio por ele conhecido. Ninguém lhe aparecia. Sobretudo se ele quisesse que ninguém aparecesse. Escreveu um último romance, onde aparecia uma Cristina. Coisa onírica, perfeita, sob o título Captura. Não suportou mais a solidão, não suportou a penúria emocional. Suicidou-se atirando-se de uma falésia ao mar.

O dono do submundo no século XXI ainda mexe

Uma gaiola onde a Igreja prendeu as almas, onde disseminou o terror e perpetrou as suas maiores barbaridades históricas. Esta, a condenação eterna. Miserável.

Da mão para a boca

Há uma frase de Freud que resume tudo: Um dia, quando olhares para trás, verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste.

Tenho vários livros de Paul Auster. Ainda não li nenhum. Mas é engraçado perceber que as pessoas de veia artística consideram-se, amiúde, tão especiais, com uma missão a cumprir, que não se sujeitam a mil e um trabalhos, ainda por cima em nome de uma quimera, como é a literatura...

A luta está lá. Mas a um preço elevado.

Alguém que te conhece

A maior lei da vida é esta: não podes encher-te de livros antes do amor.

E as boas frases também

Era uma vez um homem a quem os bons filmes davam força para existir.

Quiosque 'Fim do Mundo'

No início não havia só o infinito. Havia também um lugar chamado infinito. Os dois não se confundiam: eram como a cadeira e o homem que se senta nela. Uma espera, o outro viaja. Um lugar pode virtualizar-se, ser puro-virtual, ou ser matéria. A noção de lugar esbarra na parede bruta e núa da realidade para nos enamorar do eterno. De nascência, de lava, poesis, ossos. Lugar é memória dos dias, tão incertos mas gratos pela alvorada que o infinito concede. Do sinal de trânsito, especado e mudando as metáforas, dos signos que nos penetram quando um conjunto de lugares parecem apenas feitos para nós mesmos. Os olhos sabem mais do que ver. Dor, nostalgia, desejo. Imundície magnífico-caos do corpo sujo, os golpes oblíquos. Lugar é lugar. Como cadeira, feita para esperar. Para ler. Lugar é viagem. Como vento, feito para nos lembrar inefavelmente do enquadramento do tempo suspenso entre halos, amendoeiras-de-praia, escurecer. O lugar onde te toco não é verdadeiro. O corpo não faz eco, tão cheio de entranhas. Qualquer órbita, poeira, cometa. Vácuo-caixa onde não respiras. Sentes o claro-escuro da minha pintura como afronta, a princípio, e o lugar verdadeiro onde te toquei. Sabes lá.

O centro de nenhum centro

Os corpos da cidade crocitam esta neo-química do exprimir-fôlego. A noite escreve. Tu vomitas um silêncio que está no teu estar em silêncio, vomitando letras do princípio das coisas. Escorregar com as costas cheias, uma arma carregada de humanos científicos que caem do ecrã. Eis o iceberg crescendo e no qual iremos colidir a consciência. Juro-te. Um quadro feio de cores sem significado, casas na água que se afogam rápido, capacetes e cavalos de arroz que fazes no prato com os talheres tinados. Não há volta que não volte ao mesmo lugar. Círculo contra-imaginário que prometa um rasgão. Falha iniciática que te faça tremer os lábios de nostalgia. Ou praia deserta e quente que faça lógica. Os anseios no peito de uma mulher por um homem, o corpo de um homem, ao longe. Desvario ou animal químico. Podia ter um guardião dos sonhos quando sonho, para me alertar de que sonho simplesmente. E os incansáveis moles de água que batem são como bicos de pássaro que derrotam montanhas até ao último fragmento de granito. E o levam, longínquo, a brotar uma nova língua. Assim se fez, texto e pena com que escrever o texto.

[«Faux Suede Drifter» e «Zodiac Black»]
de Goldfrapp, Silver Eye
2017

Interrupção à minha beleza

Havia um homem na duna deitado. Tudo o que este homem levara para a duna era uma toalha, onde embrulhara um pequeno gravador de voz. Haviam já uns dias seguidos que este homem tomava esta rotina. No terceiro dia ligou o gravador, mas não falou. Gravou o bater das ondas, o silvar fino do vento nos chorões, as preces dos pássaros. No quarto dia disse:

Então estás aqui, nú e frio. Olha a tua feiura, quem é a multidão que te aplaude?

No quinto dia não ligou o gravador. Olhou o horizonte e gravou a conversa consigo mesmo, enquanto ao fundo os pescadores trabalhavam. Ao sexto dia armou-se em Philip Glass.

Silêncio. Interrupção.
Silêncio. Interrupção.

Foi tudo o que disse.

Um segundo dilúvio

Os sonhos podem ter um sabor e dimensão absurdos, podem ser um arquipélago de vontades imensas e febris, ou um súbito e herético paraíso que nos é suficiente pela vida toda, mas o amor não é senão dois corpos à procura de uma mente. Uma ilusão que se tacteia com as cores desconhecidas. Um livro escrito numa madrugada não se compara ao toque imprevisto. Deus tem inveja dos momentos. Dos segundos que não voltam e estão para sempre.
   Garrafa contra a parede.
Céu nos teus olhos, marfim violento. Deus não sabe.
   Halo-júpiter de um esófago-tempo em garganta-visão. Espirro uma luz fresca.
Entre dois mundos, Arca-reino de uma mensagem. Deus é a mente que tendes procurado, vós, amantes iludidos no que basta. Esta garatuja, dancing, bóia que deriva na corrente...

de quem. De quem será o que fica.

Seria a sua própria voz as vozes que ouvira, parecendo que vinham lá de fora vinham de dentro?

Não sabia responder a estas inquietações.
   Há as coisas, que acontecem. Mas o que acontece por um motivo, porque tem de acontecer, ou faz sentido que aconteçam, essas, põem-nos diante da verdade. O narrador deste livro não quereria decerto aparecer se não fosse ele a voz que espia o seu personagem.
A morte.
   A verdade. A verdade faz avançar.
Da personagem sabemos o suficiente. A vida é suficiente para quem tenha vivido. E por isso este livro é para quem já tenha uma vida de verdades que foram vividas como impossíveis, ou para quem entenda que a morte não é um caminho sem saída.