Teses que o silêncio tem

Acreditava que a arte servia para pedir perdão a uma mulher e amar outra. A arte não era um escape, era uma armadilha mortal.

Quando começou a escrever, e tinha verdadeiro talento, pensou que cedo atrairia a si uma mulher que o merecesse. Depois de toda a mágoa feita, via na arte, nessa deriva, no belo, a sua redenção - os seus relacionamentos com mulheres tinham sido, quando importantes, muito breves, mentirosos, fugidios.

Porém, era agora tarde para amar senão a verdade. Deus expulsou-o. Mulher que o amasse? Nunca. Irónico. Era um homem espesso, denso, incapaz e egocêntrico. Nunca se livrou disto... Sem surpresa, todos os heróis e personagens masculinos, por mais secundários que fossem, usavam sempre o mesmo nome. O seu. Planava incandescente sobre a sua solidão. Para quê mentir, para quê estratégias, falar do que não conhecia, fazer o romance feliz? Não há surpresa também aqui: as heroínas também usavam sempre o mesmo nome.

Salomé. Livro após livro, sentia que pedia perdão a Salomé e que amava Salomé. Era no que acreditava. Uma e a mesma coisa, que lhe vinha do passado, breves faíscas que com o tempo se tornaram no único foco de incêndio por ele conhecido. Ninguém lhe aparecia. Sobretudo se ele quisesse que ninguém aparecesse. Escreveu um último romance, onde aparecia uma Cristina. Coisa onírica, perfeita, sob o título Captura. Não suportou mais a solidão, não suportou a penúria emocional. Suicidou-se atirando-se de uma falésia ao mar.

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